"Eu o vi na capa da revista Life, soube das guerras que ele cobriu com bravura e dos outros feitos - as grandes pescarias, as caçadas na África, a quantidade de bebida suficiente para embalsamar um homem com o dobro de seu tamanho. O mito que ele criava a partir da própria vida era grande o bastante para uma única existência - mas eu sabia que, no fundo, ele ainda estava perdido. Que dormia com a luz acesa ou não dormia de todo, que tinha tanto medo da morte que a buscava onde e como podia. Ele era, na verdade, um grande enigma - bom, forte, fraco e cruel. Um amigo incomparável e um filho da puta. No fim, nada havia a respeito dele que fosse mais verdadeiro do que o resto. Tudo era verdade."
O quanto de paciencia Hadley Hemingway teve de ter, era uma das perguntas que não sairam da minha cabeça o tempo todo em que li este livro e "Paris é uma Festa". Sinceramente, como essa mulher aguentou, firme e forte, juro que ainda é um mistério para mim, apesar de ela expressar de maneira clara, o amor.
Com 28 anos, e muito alienada do mundo real, Hadley vai visitar Kate Smith, uma amiga dos tempos de colégio que vivia em Chicago e em meio as festas e a visita, ela conhece um jovem de 21 anos, com cabelos negros, e olhos castanhos firme e calorosos, e uma terrivel paixão pela escrita. Este jovem era Ernest Hemingway.
Conforme ela retorna a sua vida cotidiana em St Louis e ele continua em Chicago, os dois mantem correspondência quase que diariamente, ao ponto de ambos acabarem se apaixonando. Ernest a convida a morar com ele em Roma, seu plano no começo de 1920, mas desde que eles embarcassem nesta aventura como marido e esposa. Hadley aceita.
Após uma temporada em Chicago como casados, o casal embarca com destino, não mais a cidade eterna, e sim a cidade luz, Paris, local em que todos os artistas viviam e perfeito para uma mente pronta para aflorar.
Aos poucos o casal faz amizade com Gertrude Stein, Ezra Pound e a esposa Shakespear, Ford Maddox Ford, Zelda e Scott Fitzgerald. Personagens que vão sendo introduzidos no livro conforme a narrativa.
Sendo breve, os primeiros anos do casal na cidade servem para uni-los cada vez mais e para Hadley conhecer os habitos de Ernest e aos poucos se adaptar com eles. Em meio a muitos viagens, e diversos amigos que vão, voltam e saem de cena, Hemingway luta para conseguir seus textos publicados e se concentrar na escrita de seus trabalhos.
Muitos dos trechos foram retirados diretamente de "Paris é uma Festa", como as visitas ao atelie de Gertrude Stein e o momento em que Hemingway conhece Fitzgerald. E outros foram baseados nas cartas pessoais do escritor, trabalhos e documentos sobre o casal no periodo de Paris.
O livro é um turbilhão de emoções, tanto para a Hadley narradora, quanto para o proprio leitor que se vê envolto numa névoa de confusão, traição, ódio, amargura, paciência e medo. Uma hora você ama o Hemingway, e outra hora você o odeia, quase como a propria esposa. E em certos momentos, você se pergunte como ela conseguiu aguentar tudo aquilo, com muita paciencia e muito amor (eu nunca conseguiria). Hadley não conseguia se expressar em nada, e ficava em casa cuidando do filho, conversando com as amigas e sempre, sempre firme, forte e pronta para apoiar Ernest, mesmo que ela não concordasse com certas atitudes.
E o que ela ganhou? O marido a traiu com a melhor amiga, e por algum tempo, ainda tentou manter um relacionamento a três. Machucando a coitada, ele e a amante. Um verdadeiro ciclo vicioso.
Se você está procurando um livro de amor incondicional, aí está uma maravilhosa opção. Mesmo depois de tudo que fez, Hadley Harrison amou Ernest Hemingway por toda sua vida. E ele fez o mesmo, por mais que suas decisões tivessem sido preponderantemente falhas ao longo do tempo.
Uma das coisas mais bonitas no relacionamento dos dois, é depois de anos, quando Ernest escreveu "Paris é uma Festa", ele nunca, em hipotese alguma, chegou a falar mal de Hadley. Realmente ele a idolatrava, e não é por menos, nenhuma mulher faria o que ela fez e aguentaria o que ela aguentou.
Se Ernest Hemingway algum dia se tornou um ganhador de Prêmio Noble e de um Pulitzer, ele deve isso aos primeiros anos de sua carreira, e majoritariamente a sua primeira esposa, a esposa de Paris.

Nenhum comentário:
Postar um comentário