O Cortiço - Aluisio Azevedo
Ao terminar de ler esse livro me veio a cabeça duas palavras, e as duas começam com A:
Adjetivos e Animais
O Cortiço não é o tipo de livro que se pode resumir, porque mesmo que tenha apenas umas 250 páginas, tem mil e uma histórias e muitos, muitos e muitos personagens, alguns que vem e vão, outros parecem e depois somem, outros que só aparecem no final, e tem aqueles que estão sempre lá.
Primeiro de tudo, temos o João Romão, dono do Cortiço e português, que quer enriquecer e não faz nada que não lhe traga beneficio econômico ou social. Ele consegue abrir o cortiço por meio da pequena venda da Bertoleza, escrava pela qual ele divide o leito, mas não os lucros, e também pelo roubo de materiais de construção.
É importante saber que o Cortiço com suas casinhas e diversos moradores é uma personagem, frases como "O Cortiço acordou" ou "O Cortiço estava em festa" trazem a ideia de uma pessoa, que respira, vive e tem sua.história a ser contada
Alguns dos moradores principais do Cortiço São Romão, são a Pombinha, menina inocente e letrada, a queridinha de todos, mas que ainda não virou moça; Jerônimo e a esposa, Piedade, um casal de português que passam a morar na estalagem e irão sofrer com as influências do meio; Rita Baiana, a mulata apaixonante, que leva todos os homens a loucura; as lavadeiras, Augusta, Leocádia, Marciana e o Albino, o afeminado. E por mais que não more no Cortiço, há o Firmo, amante da Rita Baiana no começo da história e capoeirista, que disputara junto com Jerônimo o amor da mulata de sangue quente.
Na casa ao lado do Cortiço, há o sobrado do Miranda, conterrâneo de João Romão, mas que enriqueceu pelo casamento. Miranda vive com sua esposa, Dona Estela, a quem não suporta e acredita ser adultera; a filha, Zulmira, que acredita ser filho de outro homem; Botelho, grande amigo e colega de trabalho, que já foi rico, no entanto perdeu tudo e agora vive como agregado na casa (lembra o José Dias, do Dom Casmurro); o Henrique, filho de um rico fazendeiro, que foi para a capital estudar Medicina e por fim, os escravos, Isaura, Valentim e Leonor.
Cada protagonista tem sua função da história, apresentando um drama diferente e realista, além de caracterizações totalmente opostas ao idealismo romântico de José de Alencar. Aluisio de Azevedo aprofunda as personagens de forma que o leitor possa se identificar com suas qualidades e defeitos, que possa gostar delas e logo em seguida desaprovar suas ações. Ele animaliza as personagens, tornando-as puro instinto e pouca razão e expõem nua e cruamente a classe marginalizada da sociedade brasileira e a maneira como vivem. Ele poetiza a narrativa com milhões de adjetivos, muitos mesmo, afim de poder criticar os padrões da época e dos brasileiros, bem representado pela personagem Jerônimo, que antes português fiel e introspectivo, acaba se abrasileirando, se torna preguiço, rude e esquentado. Como se o calor dos trópicos tivesse tornado alguém muito diferente do que já fora, e estas mudanças não foram para melhor.
O autor valoriza o sexo na narrativa, característica clara do determinismo biológico e do naturalismo, para explicar as escolhas feitas pelas personagens e seus instintos. A partir deste quadro, ele abrange todas as formas de patologia sexual, partindo do adultério até o homossexualismo.
De todos os livros da lista de Vestibular que li até agora, "O Cortiço" fica em segundo lugar, logo após do Dom. Os núcleos e as personagens são interessantes, bem como todo o clima de fofoca do ambiente, e a linguagem é fácil e fluída. Uma dica para a leitura ficar mais tranquilo, já que o batalhão de nomes e pequenas histórias pode chegar a confundir, é anotar quem é quem e sua função.

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