31 de julho de 2011

Capitu, os olhos de cigana oblíqua e dissimulada

Dom Casmurro - Machado de Assis
"A separação não nos esfriou. Ele [Escobar] foi o terceiro na troca das cartas entre mim e Capitu. Desde que a viu animou-me muito no nosso amor. As relações que travou com o pai de Sancha estreitaram as que já trazia com Capitu, e fê-lo servir a ambos nós, como amigo. A princípio, custou-lhe a ela aceitá-lo, preferia José Dias, mas José Dias repugnava-me por um resto de respeito de criança. Venceu Escobar posto que vexada, Capitu entregou-lhe a primeira carta, que foi mãe e avó das outras. Nem depois de casado suspendeu ele o obséquio... Que ele casou,—adivinha com quem,—casou com a boa Sancha a amiga de Capitu, quase irmã dela, tanto que alguma vez, escrevendo-me, chamava a esta a "sua cunhadinha." Assim se formam as afeições e os parentescos, as aventuras e os livros" - Capítulo XCVIII
Traiu ou não traiu? Eis a pergunta que todos os leitores, assim como o universalmente conhecido narrador, Bentinho Santiago se faz. Seria a Capitu, melhor amiga, esposa, curiosa, uma adultera também?
Escrito em primeiro pessoa, Bento Santiago começa a obra nos contando a razão do Título "Dom Casmurro", dado a ele por um homem numa viagem, devido ao jeito da personagem. Fechado e que gosta de isolar. Por tanto, sem encontrar melhor nome para a história, deixa por Dom Casmurro mesmo.

Nasceu e cresceu na casa da Rua Mata-cavalos no Rio de Janeiro durante o II Reinado, junto com sua mãe, D. Glória, seu Tio, Cosme, sua prima D.Justina e o agregado da familia, José Dias. A história começa a se desenrolar, quando o agregado está conversando com a familia na sala, e D. Glória comenta sobre seu desejo de que Bentinho fosse seminarista, devido a uma promessa que fizera par Deus, e complementando seu pensamento, José Dias diz que quando mais cedo melhor, afinal o jovem de 15 anos passava tempo demais com a filha dos vizinhos, Capitu.
Bentinho que ouve a conversa da porta, fica sem reação, tanta sobre aquela afirmação, seu "namorico" com Capitu e a possibilidade de ser enviado para se tornar Padre.
Junto com Capitu, eles armam um plano para que Bentinho não vá ao seminário, primeiro pedem para que José Dias os ajude e então, para a mãe, que não deixe que o garoto se vá. No meio de toda essa confusão, cerca de mais da metade do livro. O relacionamento do jovem casal vai florescendo e cada vez mais Bentinho não consegue se ver longe de Capitu.
Por melhores que as tentativas tenham sido, Bento é enviado para o seminário, por meio de uma condição, se dentro de um ano não mostrasse vocação para ser padre, então poderia ir estudar outra coisa. 
A vida no seminário não se mostra de todo ruim, o local é perto da casa de Mata-Cavalos e pode visitar a mãe durante os sábados, além de fazer um bom amigo, Ezequiel Escobar, jovem com que se afeiçou e cria grande amizade. Escobar, assim como Bento, não quer se tornar padre e sim seguir carreira no comércio e conforme o ano vai se passando, sua amizade vai se tornando cada vez mais forte.
Bentinho sai do seminário, e assim como prometido pode estudar o que desejar, assim opta por Direito em São Paulo, mas, claro, sem esquecer Capitu ou Escobar. Ao cargo dos quatro anos de faculdade, ele regressa para o Rio, onde finalmente se casa com Capitu, cumprindo a promessa que uma vez fizera a ela.
Escobar também havia se casado, com uma grande amiga de Capitu e os casais se tornam praticamente inseparáveis, sempre indo a casa um do outro. Bentinho e sua esposa ganham um filho, Ezequiel (nome dado em homenagem a Escobar), e tudo parece perfeito para o casal.
Numa manhã, um escravo de Escobar e Sancha (nome de sua esposa) vem chamar Bentinho, avisando-o sobre um acidente. Seu amigo tinha ido nadar no mar, e como a correnteza estava forte de mais fora jogado nas rochas e morrera, quase não conseguindo tiraram o corpo.
É com a morte de Escobar que o pesadelo de Bentinho começa.
Abalada com o falecimento do grande amigo e com uma série de "detalhes" e gestos de Capitu, que acredita significarem mais do que aparentam, ele começa a desconfiar da lealdade do amigo e da esposa, e do verdadeiro progenitor de Ezequiel.
Teria Capitu e Escobar traido ele? Seria Ezequiel filho de Escobar?
Conforme a história vai se seguindo há um declive mortal na existência de Bentinho e em seu relacionamento com Capitu, ambos são secos um com o outro e "se toleram", e o narrador não encontra muitos motivos para viver, mas dia após vê no rosto do filho e em seus modos, mais e mais evidência de seu parentesco com o amigo.
Eu fiquei surpresa com a minha reação a "Dom Casmurro", mesmo. Imaginei que demoraria uma semana para ler de tão entediante e que terminaria irritada com a história. O contrário aconteceu. Eu GOSTEI MUITO!.
Diferente de todas as expectativas, acabei me emocionando, adorando a maneira como Machado escreve fabulosamente bem, o amor juvenil de Bentinho e Capitu e como tudo começa a desandar. A história tem sua essência e ela é real, nada como Vampiros e Lobisomens, a garotinha nerd fica com o bonitão, ou todos vivem felizes para sempre. Dom Casmurro poderia ter acontecido. E é isso o que torna o livro tão fascinante, o realismo do autor.
Por que a vida é assim mesmo certo? Nós temos dúvidas, nos distanciamos de quem mais amamos, temos tudo e então perdemos tudo, erramos e temos as conclusões erradas sobre as pessoas. E muito mais, nós crescemos e mudamos. Bentinho de 15 anos, Bentinho recém-casado, Bentinho pai, Bentinho pós-morte de Escobar, Bentinho. Todas essas muitas facetas da personagem vão se mostrando durante a narrativa inteira, a ingenuidade, o orgulho, o amor, o carinho, a frieza, a secura, a depressão.  Assim fica evidente, quando ele conta da casa que mandara construir no Engenho Novo, idêntica a de Mata-Cavalos, buscando na construção uma maneira de retornar ao passado e os temos áureos de sua vida, no entanto, ele não consegue, pois não é o mesmo que fora.
 Já ouvi milhares de pessoas dizerem, o Bentinho é chato. Bom, o livro é um romance psicológico, e se considerarmos a linha de pensamento, ele é menos chato que muitos de nós.
Não concordo com o narrador sobre a traição, na realidade, acredito que ambos Escobar e Capitu eram fieis até o fim e Ezequiel, seu filho, ao qual quis distância, era mesmo seu filho biológico. Capitu era dissimulada? Concordo plenamente. Adúltera? Não. Ela podia ser estranha (em alguns pontos), curiosa, e devia ter seus segredos, mas ela amava o Bentinho e muito. Seguinte, ela fez, que fez, que fez para que eles terminassem juntos e casados, e depois vai traí-lo? Dúvido muito.
Agora cada um possui a sua opinião, outra qualidade que torna o livro tão interessante, o próprio leitor constrói a história em sua mente, e o que pensa de Capitu quando jovem, reflete na opinião que terá sobre ela e seu marido no final.
Para descobrir o que você pensa sobre Capitu e Bentinho, leia o livro por quatro motivos:
1- Formar uma opinião sobre o adultério 
2 - Conhecer Machado de Assis e apreciar
3 - Cenário histórico, o Rio de Janeiro de 1860.
4 - Fuvest. Goste você, vestibulando, ou não, leia que é muito melhor do que ficar pulando de site para site em busca de resumo da história. 200 páginas não vão matar ninguem, e pelo menos, dois testes certos da parte de Literatura, é garantido!


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